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Está com medo do que?

Sim, está com medo do que? Com medo que o Coronavírus, esse desconhecido mensageiro da morte me pegue desprevenido e me jogue no reino de Hades, onde o barqueiro conduz sem retorno, o passageiro à outra margem do rio da vida.


Medo dos passos no beco escuro, da sombra projetada na parede que desenha o monstro. Medo de tudo o que desconheço e que, por ignorância, defino como ameaçador.


Em tempo algum teremos a possibilidade de exercer total controle das circunstâncias e de ter pleno entendimento das forças que desafiam a nossa vulnerabilidade. Coisas acontecem a qualquer pessoa, a qualquer empresa, a qualquer momento. E a nossa leitura dos acontecimentos depende das nossas experiencias prévias. Essas experiencias por sua vez rotulam o nosso jeito de ver o mundo, criam os conceitos. É um círculo que começa onde termina...


Cada um de nós – você e eu - descreve um evento que ambos presenciamos de forma distinta, e cada um de nós o experimenta de um jeito particular. E o que dirige o nosso olhar? O nosso ponto de interesse. Cada um de nós - você e eu - escolhe a maneira de experimentar um acontecimento.


O olhar cria o fantasma, alimenta o pânico que a ignorância nutre.


Quando o colega de treino fica diante de mim no tatame de Aikido, forte, disposto a me atacar com vigor, posso enxergar nele a violência avassaladora e posso me retrair, ou posso me lançar numa luta fratricida durante a qual torço para que a minha fragilidade se transforme força e me salve. E,posso ainda ver uma oportunidade para apreciar em mim a energia em movimento para me harmonizar com o colega. Conforme a minha escolha vou agir e assumir a responsabilidade pelos seus efeitos.


Respondo ao ataque porque treinei antes. Para encarar o vírus eu me vitalizo, aumento a imunidade do meu corpo e ganho resistência comendo o alimento correto, praticando atividade física, dormindo o suficiente , aumentando a troca de afetos positivos. Cuido na maneira de andar pelo mundo sem esbarrar e machucar quem está próximo ou quem esteja distante.


Cuidar.Estar atento para reconhecer se a sombra projetada é um teatro infantil ou se é o vil que tenta se esconder para surpreender e tomar.


A atenção rejeita a tensão que o medo impõe. O medo, sentimento natural, companheiro, tem a ambição de nos ajudar, ele é servo. Não é razoável deixar que saia dessa posição. Para isso nos cuidamos. Olhamos onde caminhamos, organizamos nossos recursos. O medo, quando sobe ao trono, tira a nossa capacidade de escolha. E dá o pretexto para não se assumir responsabilidade.


A resposta ao medo não é o destemor imprudente e inconsequente. Não serve o tolo, arrogante, que desafia o sol e veste asas coladas com cera, para cruzar em voo o céu. A resposta ao medo é a coragem do guerreiro que segue, mantendo o medo a seu lado, porque isso o humaniza. É a coragem que sustenta a atenção , que nos dá tempo para entender, observar, parar e seguir.É a coragem que permite aceitar o que não pode ser desafiado. É a coragem que lida com o que não pode ser controlado. É a coaragem que nos dá a medida de nós mesmos, sem bravatas.


O viajante encontra a Peste pela estrada andando velozmente e pergunta onde ela vai. - À cidade.matar dez mil, responde. Passado o tempo, o viajante reencontra a Peste e a repreende: - Você disse que iria matar dez mil e morreram cem mil!

E a Peste : – Eu matei dez mil, os outros morreram de medo...

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