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Na justa medida


A quarentena que mede forças com o novo corona vírus também está testando a minha capacidade de lidar com pessoas bem intencionadas e pouco práticas.


Eu me explico.


Você , como eu deve estar recebendo muitas informações, orientações e explicações a respeito de como se proteger e aos seus da avassaladora disposição desse vírus em provocar um colapso no sistema de saúde, no sistema econômico, no futuro das nossas vidas.


E temos aprendido bastante yoga, técnicas de relaxamento, ouvimos boas músicas, vídeos incríveis e pessoa maravilhosas produzindo mensagens inspiradoras ( eu mesma me inspirei e dei vazão à minha veia poética que mantenho normalmente sob controle, para não assustar os racionalistas com os quais interajo no cotidiano profissional). Diante do risco da grande hecatombe universal, há lugar e necessidade para o lirismo, para apreciação estética e os mais elevados sentimentos.


Nunca imaginei que a arte tivesse um poder tão concreto e capacidade de me tirar de uma realidade objetiva e reducionista para , por meio das imagens, de sons, do sentimento expresso pelas palavras, pudesse transformar momentaneamente a percepção do mundo lá fora, produzindo um silencio de bem estar. Isso me serve. Mas, basta?


Voltando ao meu estado de espírito. Pessoas boas , criativas e bem intencionadas estão oferecendo “o melhor de si” e das suas crenças para aliviar a dor que ocupa o cotidiano inadiável de milhares, milhões de pessoas.


Tenho imensa gratidão pelas palavras de conforto, pelos exemplos de beleza , pelas músicas reconfortantes. Tenho espaço para experimentar essa gratidão porque a minha despensa está cheia, tenho dinheiro no banco e posso não me preocupar com a semana que vem quando vence a minha conta de luz, de gás, de água , do celular e da Netflix.

Mas, o meu sentimento é o de que falta alguma coisa nesse movimento generoso.



Há uma retroalimentação do gueto ao qual nos acostumamos a pertencer , olhando para os nossos iguais , que tem as carências semelhantes, necessidades parecidas e que precisam relaxar, desestressar e descobrir novas rotinas de aprendizado e de ocupação do tempo enquanto absorvem com apoio terapêutico variado as limitações do ir e vir.


E a gente, que tem essa posição, não olha para fora da janela, a não ser para apreciar a música do vizinho, da clarineta do bombeiro na escada Magirus tocando acordes envolventes para nos aliviar do tédio. Os nossos males são os males da alma, da mente, são filosóficas necessidades de superar as barreiras que nos põe no claustro.E nosso remédio é do espírito e da mente.

Do outro lado da rua, do morro, no final da linha do trem tem gente que não pode apreciar as palavras que consolam. E tampouco tem espaço no vazio das suas barrigas para ocupar com análises políticas.


Aikido, para quem me conhece um pouco sabe , que é a arte que pratico e e orienta o meu olhar do dia a dia. Um dos princípios básicos do Aikido, arte marcial japonesa, é o timing , ou seja, o momento correto para responder a um ataque. Nem antes, nem depois. E na velocidade e ângulo certos. Se atrasar na resposta o ataque atua com a capacidade total - sou dominado; se me adianto ao atacante este muda o ataque e na surpresa, sou igualmente controlado . O ensinamento aqui , para mim é: agir conforme a necessidade antecipando-me imperceptivelmente ao ataque, quase como se estivesse agindo ao mesmo tempo, na velocidade adequada e no ponto necessário. Para isso é preciso atenção plena e controle emocional, além de , naturalmente, conhecimento técnico.


Onde o vírus está atacando a mais da metade de da população do país? Na barriga, no dia a dia da sobrevivência. Nós, que pertencemos a metade que recebe o ataque no espírito , na solidão dos nossos corações e na apreensão das nossas mentes, podemos responder a esse ataque com a arte, com meditação, com orações . Isso irá nos dar mais dignidade e bem estar para viver o confinamento. Resolvido isso, no recôndito confortável do nosso lar, com luz, água, gás e despensa, há gestos imprescindíveis e urgentes para mais da metade das pessoas que moram no Brasil. Gestos de governo e movimentos individuais. Sobre a lerdeza ineficiência e inapetência, insensibilidade, descompromisso dos gestores públicos depois conversamos. Temos agora outras exigências.


É importante olharmos para as nossas políticas de desenvolvimento para que incluam os excluídos da rede de proteção social, os agora chamados vulneráveis, invisíveis; o importante é agirmos para cuidar dos idosos que são as pessoas que desafiam o tempo vivendo e contribuindo para construção da cultura e da memória das famílias e da sociedade; o importante é rever os critérios de preservação e manutenção do meio ambiente; o importante é ter consciência das escolhas que fazemos quando elegemos pessoas para fazerem escolhas por nós. Tudo isso é importante.

Mas estamos diante de urgências.

O importante precisa esperar.


Além das correntes de oração, de reflexão , de crítica e de auto crítica, e de aprendizado filosófico que tal a gente arregaçar as mangas e olhar para mais da metade das pessoas que não tem o que comer? Como alimentar cada uma delas, a gente descobre. Tem correntes com iniciativas e terminativas circulando pelas redes da internet. Primeiro o urgente, o importante tem tempo, se sobrevivermos.

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