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Tem alface no dente


Vez ou outra precisamos de um espelho. E o espelho que nos mostre onde está o problema e não apenas como uma projeção do nosso narciso oculto, a vaidade que geralmente não nos permite enxergar o que não parece lá muito bem.



Mas acreditamos muitas vezes não precisar de vozes críticas ou discordantes. Afinal, temos certeza de que os outros não conseguem enxergar a maravilha que somos, quando nos julgamentos que rejeitam a nossa ideia criativa e respostas irrecorríveis. E vem o Sartre, o filósofo Jean Paul Sartre, com a lembrança de que “ o inferno são os outros”.



Porém, com toda reverencia ao mestre existencialista francês que incendiou gerações com o seu reconhecimento um tanto pessimista da realidade, reconheço que os infernos podem estar em vários outros lugares, mas preferencialmente está em cada um de nós mesmos. É mais fácil e quase natural, para não dizer automático - reclamar da incompreensão e da incapacidade do outro de nos enxergar como desejamos ser vistos, sim, é esse outro o inferno que nos ronda.



O outro funciona para nós, frequentemente, como um espelho que nos mostra o que não queremos ver – porque diferentemente do objeto plano que nos reflete em silêncio – a única voz nessa contemplação é a nossa própria, em auto elogios e também, não raramente, em autodepreciação. E o parâmetro que define se vivemos uma eufórica arrogância ou a humildade deslocada, é o nosso estado de espírito e o desejo de enxergar o que se quer ver.



Mas, se temos uma alface no dente quem nos alerta é a companhia da refeição. Entre constrangido e cerimonioso o outro nos informa que o sorriso está maculado, que a escuta está distraída pela presença da intrusa . E solidário companheiro nos oferece indicações para que seja removida a alface : ” - Mais lá, mais cá, ainda não, falta ainda um pedacinho.... A conversa abre um parêntese interminável, numa luta contra o miserável fragmento do vegetal, e só depois de removido qualquer outro assunto terá sentido.



O outro, quem está diante de nós, é nosso espelho. Não apenas para o que não queremos ver, mas também para o que não podemos ver. Não é o tempo todo que você eu estamos atentos.



Na convivência com as pessoas encontramos esses desafiadores seres que nos alertam que não estamos tão bem assim como queremos mostrar – a foto não é tão boa - , e também nos apoiam quando acreditamos estar de mal a pior.



O cuidado com espelhos é que eles também podem distorcer a imagem que projetam. Se não estiverem polidos, limpos, e com a superfície plana e plena, a imagem pode ser a da própria sujidade. Ficamos então diante de um dilema – em que medida o espelho – o outro – é confiável?



Nesse ponto é necessário refletir sobre os espelhos sobre os quais você deposita confiança e cujo reflexo avalia como sendo honesto. Em quem confia? O que faz você aceitar a imagem projetada? Quando a reconhece?



Fatos: nem sempre o outro vai espelhar você. Muitas vezes as pessoas estão falando de si próprias. Quando elogiam, quando criticam, estão relatando as suas dificuldades, limitações, fantasias, desejos – conscientes ou não - e quando se referem a você podem estar mesmo é se auto refletindo.



Portanto, o que parece inevitável é que cada um de nós aceite o olhar do outro, as opiniões, as orientações - inclusive essas aqui - mas antes de botar em prática qualquer conselho, concordar com alguma ponderação, defender pontos de vista, é preciso conferir no próprio espelho interno se o que está sendo oferecido tem “espelhamento” real. Sim, cada um de nós tem um espelho interno, que irá refletir com clareza o que está colocando diante de si.



Escute, acolha, mas confira.



Para enxergar por si mesmo é preciso que uma luz – também interna – se acenda – não há reflexo se não houver luz para iluminar a superfície desse espelho, permitindo revelar a imagem projetada, tal qual é.

Que luz é essa, e como pode ser acesa?



A luz é a autoconsciência – ter ciência de si. Ela se acende na medida em que cada qual se observa, com cuidado, gentileza e honestidade. O exercício é de auto observação desinteressada de falhas ou de qualidades, de julgamento , de curiosidade; apenas simplesmente acolhendo , ilumina o espaço onde o espelho interno reflete, o que se é.



O que será visto nem sempre será agradável – mas não é a imperfeição um sinal de que existe perfeição? Assim o é, segundo o filósofo Boécio, no seu magnífico Consolação da Filosofia. Se há uma degeneração em algum ponto este é o registro de que algo se perdeu, e, se perdeu, há a possibilidade de recuperação.



Tem alface no dente. O alerta – pode ser de cuidado e de atenção – ou uma galhofa , divertimento pela inconsciência do inapropriado . Importa menos o tom do outro, que ao outro pertence. Contudo, manter os dentes limpos de resíduo da alface é atribuição de quem come a alface.

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