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O rabo do elefante


Outro dia uma amiga, que intuo , plena de boas intenções envia um vido por whatsapp - com qualidade técnica e profissional - mostrando a honestidade institucional, exemplarmente demonstrada por um ministro da Corte de Justiça sueca , que embora amparado por um cargo de grande representação e respeito, para não dizer de grande poder, se desloca pelas ruas de Estocolmo usando o serviço público de transporte, sem mais luxos.


Também o vídeo conta que aquele cidadão não tem prerrogativas que o ponha acima dos direitos dos cidadãos comuns, estando sujeito a dispensas e a cobranças como qualquer funcionário público.


A propaganda inserida de maneira subliminar e competente tenta criar exemplos de condições e práticas a serem seguidas pelo Brasil - considerando que o discurso daqueles que não acreditam em Poderes independentes e interdependentes como alicerces para um sistema democrático – e eu me refiro em especial, nesse exemplo, ao Judiciário - apontado pelos desafiadores da ordem legal e legítima do estado de direito como espaço de privilégios e de usurpação de competência de poderes do Executivo.


O vídeo me lembrou a velha estória hindu ensinada para ilustrar como a estreiteza de visão não deixa perceber a amplitude de uma situação. Tocar apenas no rabo do elefante e descrever o bicho como se fosse uma vassoura é como fez o sábio cego do reino, que junto com outros cegos sábios descreveram o animal que nunca tinham visto - como nunca tinham visto qualquer um m outro pois cegos nasceram - e postados diante do animal foram instados pelo príncipe a descrever o elefante. Variou a descrição de o elefante se assemelhar a leques abertos - pelo cego que lhe alisava as orelhas, ou a postes, pelo outro que lhe tocava as pernas, ou seria uma parede intransponível descrito pelo cego que lhe apalpa a barriga , ou ainda seria uma vassoura segundo o cego que acariciou o rabo - sem se dar conta que por ali também saiam as fezes do paquiderme.


Quando tocamos um pedaço da realidade - com o olhar semicerrado das nossas convicções - não temos como perceber uma realidade mais ampla - , porque não raro o que está diante de nós desafia os nossos desejos - afinal de contas - a tentação por encontrar respostas que nos satisfazem e confirme - o tal viés de confirmação -, é parte de um instinto de sobrevivência, pelo medo.


Nesse lugar seguro das nossas estreitezas nos instalamos - muitos de nós não atentos - e ficamos – muitos de nós covardes – sem mexer um passo além da comodidade garantida pelo conhecido, falsamente conhecido , optando por não desvendar o ignorado - para reproduzir o discurso do preconceito e da ignorância.


Os seis cegos - menos sábios agora que foram colocados diante do elefante da realidade - ficavam pé e esbravejam atribuindo cada qual uma figura ao elefante - sem a capacidade de reconhecer que num movimento que desse espaço à escuta, poderia ter maior entendimento de como seria um elefante.


Para que o ministro sueco , artista do vídeo - agora em palpos de aranha -, por conta das escolhas feitas pelos líderes do seu país optando pelo não confinamento para combater a contaminação pelo novo Coronavírus , e tendo que encarar o maior índice de morte per capita da Europa pela Covid-19 - pudesse ser a descrição completa do elefante, - o sistema Judiciário sueco exemplar a ser seguido pelo Brasil, era preciso apalpar melhor a Suécia. Mas, a propaganda tem dessas coisas. Direciona o olhar do potencial comprador para um ponto de venda do produto e torce para que o consumidor não leia tudo o que está em letras miúdas na etiqueta, que não saiba dos riscos e das contra indicações -e que não tenha muita clareza das indicações.


Ora pois... Se eu estivesse na Suécia teria um Estado de bem estar social com acesso a todos dos serviços públicos de qualidade – pagaria uma boa parcela dos meus rendimentos em impostos e teria a tranquilidade para sair a qualquer hora do dia ou da noite sem temer quando houvesse a aproximação de uma pessoa, na viela escura – que não seria escura , porque haveria iluminação pública. Teria escola de qualidade para os meus filhos, acesso à universidade e opções de cultura com políticas inclusivas de acesso aos equipamentos do Estado.


Olhar o rabo do elegante e descrever por ele o animal é justificar, diante da violência policial contra um negro – “ vai saber o que ele fez! ( o negro, claro, porque o policial está a serviço da lei e da ordem). Olhar o rabo do elefante e confinar a si mesmo nessa certeza sem abrir espaço para a dúvida, para a ciência, para a filosofia, para o saber comum acumulado pelo povo no seu sofrimento e ainda não completamente traduzido em estatísticas e em políticas públicas - é a escolha dos toscos, medíocres e preguiçosos.


No Aikido – a arte marcial que pratico – a tentativa de arrastar o cego para outros lugares, para que apalpe e saiba mais sobre o que é o elefante não é uma estratégia recomendada. O outro não vai, resistirá , se não quiser. Irá quando souber que ficar ai, não lhe fará bem. Então, deixemos com o elefante . Haverá o momento em o animal irá excretar.

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